Brasil: Complexa gestão política desafia governo

Ene-12-11 - por Murillo de Aragão

A primeira semana do governo Dilma Rousseff revela que os problemas virão mais dos aliados e não tanto da oposição. Desidratada, sem proposta e ainda atordoada por mais uma derrota na eleição presidencial (a terceira consecutiva), a oposição virou “café com leite”. Seu caminho será o de tentar explorar as dissidências de uma base política grande, ideologicamente diversa, programaticamente débil e malconstruída. E pelos sinais desse início do governo, não faltarão oportunidades para crises.

Repercutiu muito mal dentro do PMDB a primeira reunião de Coordenação Política com a presidente. As fotos estampadas nos jornais mostravam Dilma cercada de ministros petistas e sem nenhum peemedebista. Apenas Michel Temer aparecia na foto. Mas não como representante da legenda, e sim como vice-presidente da República.

O mesmo se deu com a reunião sobre erradicação da pobreza, tema – evidentemente – de natureza estratégica. Mas lá não estava Moreira Franco, titular da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Além disso, como se sabe, o PMDB não está satisfeito com o espaço que lhe foi reservado na equipe ministerial e deseja compensar com mais cargos no segundo escalão. É nesse ponto que reside a má construção da coalizão.

Sabemos, por princípio, que nenhuma coalizão tende a representar, de forma fidedigna, sua imagem no ministério. Sempre existem arestas e insatisfações relacionadas à natureza morfológica de nossos partidos. Por isso, na estruturação de um ministério, o papel do núcleo duro do poder é o de minimizar as insatisfações e sinalizar que se exigirá fidelidade absoluta de quem foi atendido.

A montagem do primeiro ministério Dilma apresenta graves distorções que resultam dos seguintes fatores: diálogo inconsistente entre o PT e o PMDB e visão equivocada de que tudo será resolvido na distribuição de cargos e de que o tempo cura as feridas.

Isso posto, eis o que teremos pela frente. De início, a questão do salário mínimo já foi escolhida como campo de retaliação. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ameaça apresentar uma emenda sugerindo o valor de R$ 560 em substituição aos R$ 540 propostos pelo governo.

Vale dizer que o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), disse que a iniciativa de Cunha não representa uma posição oficial do partido. Porém, todos em Brasília sabem do peso de Cunha nas articulações da legenda.

Outra linha de atuação da estratégia peemedebista pode passar pela escolha do novo presidente da Câmara dos Deputados. Marco Maia (PT) conta com o apoio de Henrique Eduardo Alves, da oposição e de alguns outros partidos da base. Porém, Aldo Rabelo (PCdoB) e Sandro Mabel (PR) podem decidir disputar o cargo. O favoritismo de Maia parece assegurado, mas o clima pode levar a novas negociações e novas condições para o apoio a ele.

O resumo da ópera é o seguinte: o principal parceiro do PT no governo Dilma não está satisfeito e isso não é um bom sinal para as agendas política e legislativa que se apresentam. Em tempo: considerando o clima, talvez a solução Cunha termine prevalecendo, já que a oposição poderá propor R$ 600 e buscar apoio entre os dissidentes para colocar o governo no corner. Além do salário mínimo, há outros temas complicados para o governo que aguardam votação do Congresso Nacional. A PEC 300 (criação do piso salarial para policiais civis, policiais militares e bombeiros), por exemplo, caso aprovada, calcular-se que poderia ter impacto de R$ 20 bilhões. O projeto de lei que propõe reajuste de 56% para o Judiciário custaria R$ 4,5 bilhões. Outro item é o que propõe o fim do fator previdenciário.